O mito das dietas restritivas e o por que elas não funcionam a longo prazo

25 de março de 2025 às 17:48

Foto: Free Image

Reportagem: Carol Aguiar

Dietas restritivas baseiam-se na contagem rígida de calorias, exclusão de grupos alimentares inteiros e longos períodos de jejum. Popularizadas na internet, vendem a promessa de perda de peso em poucos dias, mas cobram um preço alto: malefícios físicos, desconforto psicológico e uma relação conturbada com a comida.

Segundo a nutricionista Victoria Guimarães, essas dietas costumam eliminar grupos alimentares como glúten, lactose, açúcar e, principalmente, carboidratos ou fontes de gordura. Além disso, impõem uma redução drástica no consumo calórico diário.

Para a nutricionista Renata Lourenço, o ciclo começa nas redes sociais. A pessoa se compara a corpos que seguem os padrões de magreza impostos pela mídia, um fenômeno que atinge principalmente mulheres, pressionadas por uma estrutura social machista. Na ânsia por resultados imediatos, busca métodos rápidos no Google e encontra dietas genéricas, como da melancia, da sopa ou do suco verde, ou tenta copiar a rotina alimentar de influencers digitais.

Perigos invisíveis

Os riscos são tanto físicos quanto emocionais. “Há desequilíbrios nutricionais pela falta de macro ou micronutrientes. Essas dietas são insustentáveis, a pessoa volta a comer como antes, ou até mais, e recupera o peso. O resultado é a sensação de fracasso”, explica Victoria.

A jornalista Luma Silveira, 25 anos, que enfrentou transtornos alimentares, relata tentativas frustradas: desistiu da dieta do ovo no primeiro dia e adotou a low carb, que corta carboidratos. Hoje, passa horas sem comer por “falta de tempo”, em jejuns não intencionais, e sente mal-estar ao se alimentar.

Após consultas médicas, descobriu ter hipotireoidismo e ovário policístico, condições que afetam o peso. Foi orientada a buscar uma alimentação equilibrada, sem excessos, fracionada ao longo do dia e com restrições, que devem ser prescritas por profissionais da área.

Luma relembra o ciclo de desequilíbrio:

— “Até emagrecia, mas depois engordava. Meu corpo se adaptava, a insulina disparava. Cheguei a ganhar 12 kg em uma semana, o mesmo que perdi em seis meses de dieta.”

Renata alerta para as consequências: efeito sanfona, compulsões, ansiedade, depressão, distorção da autoimagem e transtornos como bulimia e anorexia. Sintomas físicos também aparecem, como queda de cabelo, deficiência de vitaminas, fraqueza, unhas quebradiças e irritabilidade.

Victoria reforça que, nessas dietas, a pessoa não aprende a se relacionar com a comida: “Ela apenas corta alimentos, e quando volta a consumi-los, recupera o peso, sem entender o verdadeiro equilíbrio.”

Segundo a Veja Saúde, em “Os cinco perigos das dietas restritivas para emagrecer”, a nutricionista Sophie Deram afirma que 95% das pessoas recuperam mais peso do que perderam, devido ao apetite incontrolável pós-restrição. Os outros 5% desenvolvem transtornos alimentares.

Emagrecimento ≠ perda de peso

A diferença é crucial. Perda de peso refere-se apenas ao número na balança, que inclui massa muscular, água, gordura e ossos — uma métrica vazia. Já o emagrecimento é a redução da gordura corporal, alcançada com déficit calórico sustentável, sem fome ou dietas radicais. “Dietas restritivas causam perda de peso, não emagrecimento”, esclarece Renata.

Luma reconhece o padrão em sua história:

— “Eu dava um gás, dizia ‘agora vai’, mas desistia no meio. Já começava sabendo que não daria certo, e a decepção era maior cada vez.”

Um processo de emagrecimento saudável considera fatores individuais: cultura, condições socioeconômicas, emocionais, paladar e rotina. É a longo prazo, aliado a exercícios e hábitos sustentáveis. “É possível comer mais e ingerir menos calorias, só trocando os alimentos”, diz Renata.

— “Você não engorda 10 kg do dia para a noite, então não os perderá assim. Emagrecer é lento, mas, se for saudável, esses quilos não voltam.”

Comer bem: a verdadeira revolução

No livro O peso das dietas, Sophie Deram defende que comer bem, e não menos, é o caminho. Significa alimentar-se sem culpa, com prazer, respeitando fome, saciedade e emoções. Cozinhar alimentos “de verdade” (não industrializados) ajuda a controlar o apetite e transforma o ato de preparar refeições em uma prática quase meditativa.

Victoria explica que a nutrição ideal inclui porcentagens balanceadas de carboidratos, proteínas, gorduras, vitaminas e minerais, algo fácil de alcançar com alimentos naturais como arroz, feijão, carne, frutas e legumes.

“Comer bem é consumir o básico, comida de verdade, e também o que faz bem para a alma — um chocolate, um sorvete, uma pizza. Não têm valor nutricional, mas têm um lugar consciente na rotina”, diz. O cardápio varia conforme o objetivo (emagrecer, ganhar massa ou manter o peso), mas sempre com base no natural.

Para Renata, comer bem é abandonar a mentalidade de dieta e “virar a chave”: aprender que não há alimentos vilões ou mocinhos, apenas equilíbrio.